Outubro chegou e, com ele, mais uma campanha mundial que objetiva alertar a população sobre o câncer de mama, doença que afeta mais de 2 milhões de mulheres (e também homens) em todo o mundo e que ainda tem alta taxa de mortalidade – em 2017, foram quase 17 mil óbitos só no Brasil. No entanto, junto aos esforços para cuidados, prevenção e importância do diagnóstico precoce, também surgem fake news. Notícias falsas que trazem mitos sobre o câncer e confundem as pessoas a respeito do que é real e aquilo que não passa de mentira.
A lista é enorme e compreende desde o uso de sutiã preto ou de aros como causa para a doença (um mito sem o menor fundamento científico) até dados que realmente geram dúvida, a exemplo de que a mulher diagnosticada com a doença perde a fertilidade (o que também é mentira diante da possibilidade de congelamento de óvulos antes do início de tratamentos como químio e radioterapia).
Aqui, conversamos com o presidente da Sociedade Brasileira de Mastologia – Regional Minas Gerais, Waldeir Almeida Júnior, com outros profissionais e com mulheres que venceram o câncer de mama para explicar que a doença é perigosa e pode ser fatal. Mas também traz prognóstico positivo, principalmente quando é diagnosticada no início, o que amplia a chance de sucesso do tratamento.
Estatísticas 

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“O câncer de mama é o tipo  mais comum entre as mulheres, excluindo o câncer de pele, em todo o mundo e no Brasil, representando quase 25% dos casos totais da doença. Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) apontam 2,09 milhões de novos casos de câncer de mama em 2018. No Brasil, segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), a previsão é de 59,7 mil novos casos neste ano e representa a principal causa de morte por câncer nas mulheres”, alerta o mastologista Waldeir Almeida Júnior.

O especialista destaca como boa notícia o fato de que a mortalidade pela doença está se reduzindo em países desenvolvidos. No entanto, o quadro não se repete no Brasil, “devido principalmente à ausência de políticas para um rastreamento organizado do câncer de mama, em que teríamos a possibilidade do diagnóstico de lesões iniciais, com tratamentos menos agressivos e maior taxa de cura”.
Fatores de risco 

Em relação a fatores de risco – um dos temas que mais geram fake news na web –, o médico é taxativo. “O diagnóstico tardio pode ser relacionado com a principal causa de morte no câncer de mama. Isso porque, nos casos em que a descoberta das lesões se dá em período inicial, as taxas de cura chegam a quase 100%.” Assim, importante definir o que é, de fato, fator de risco. Entre os comportamentais, o médico lista obesidade e sobrepeso, sedentarismo, consumo elevado de bebidas alcoólicas.

As mulheres também devem estar atentas ao histórico do próprio sistema reprodutivo. “Ter a primeira menstruação precoce e a menopausa tardia, não ter filhos, usar hormônios, como as pílulas anticoncepcionais, além de reposição hormonal na pós-menopausa por longos períodos também são fatores de risco.”
Já entre os hereditários, o mastologista chama a atenção para a história familiar de câncer de mama, (principalmente parentes de primeiro grau com câncer antes dos 50 anos ou bilateral; familiares com câncer de ovário; homens na família com câncer de mama. “Lembrando que somente de 5% a 10% dos cânceres de mama são ligados a fator hereditário, e que a maioria das pacientes que têm câncer de mama não apresentam fatores de risco.”
Sonho 
O diagnóstico precoce para o câncer de mama, no ano passado, levou Mariana Hamacek a também pensar sobre o desejo de ser mãe. A alternativa para manter a fertilidade foi o congelamento de óvulos. Em idade fértil, ela procurou uma clínica especializada em reprodução assistida antes de começar o tratamento. “Decidi fazer o congelamento de óvulos. Ser mãe é o meu sonho. Ainda não sei quando tentarei a maternidade, mas não poderia correr o risco de nunca realizar meu sonho”, destaca. Após a retirada de óvulos, ela foi submetida à cirurgia de mastectomia e, em junho deste ano, iniciou o tratamento de quimioterapia.
Autoexame x mamografia 

Há, ainda, um outro assunto que gera dúvidas: o autoexame das mamas por si só é uma forma de prevenção 100% eficaz?

Almeida Júnior reconhece a importância do autoexame (e afirma que toda mulher deve conhecer e apalpar as mamas), mas lembra que esse cuidado não deve ser um método de rastreamento do câncer de mama, “pois detecta lesões já palpáveis, e o ideal é que, quando diagnosticado, o câncer seja subclínico, ou seja, sem sintomas”.
Outro dado é relativo à natureza do tumor. “A descoberta de uma mudança nas mamas deve ser sempre comunicada ao mastologista e, na maioria dos casos, corresponde a lesões benignas.” A mamografia é “ferramenta ideal de rastreamento do câncer de mama” e, portanto, uma grande aliada na prevenção e na detecção precoce da doença.
O raio-X do câncer de mama
Confira os principais mitos e verdades sobre o câncer de mama. Conheça os fatores de risco e métodos mais eficazes de rastrear a doença. E lembre-se: o diagnóstico precoce aumenta as chances de cura em quase 100% dos casos.
Uma em cada 12 mulheres receberá diagnóstico positivo para câncer de mama
VERDADE. Levantamento realizado pelo Instituto Nacional do Câncer (Inca) revelou que o Brasil somará cerca de 60 mil novos casos de câncer de mama em 2019, número que corresponde a 28% de todos os diagnósticos da doença registrados no país – o que faz dele o tumor mais incidente entre as mulheres, depois do câncer de pele não melanoma.
A mulher deve estar sempre atenta à saúde das mamas, mesmo antes dos 40 anos
VERDADE. Independentemente da idade, a mulher deve apalpar suas mamas como autoconhecimento. Segundo a Sociedade Brasileira de Mastologia, após os 40 anos, a mulher deve realizar a mamografia de rastreamento anualmente.
O diagnóstico precoce aumenta as chances de cura
VERDADE. Quanto mais precoce o diagnóstico, mais inicial será o estadiamento da doença e maiores as chances de cura e da possibilidade de se utilizarem tratamentos conservadores e menos agressivos. Se o diagnóstico é feito com a doença avançada, com metástases (quando o câncer se espalhou para outros órgãos), o tratamento se baseia no controle da doença e melhora da qualidade de vida da (do) paciente.
Certos tipos de desodorante e ou o hábito de usar sutiã de aro provocam câncer de mama
MITO. Tais ideias, muitas vezes divulgadas na internet, não têm o menor respaldo científico.
Fazer mamografia ou a irradiação do exame mamográfico provocam câncer
MITO. Os exames não provocam a doença e são importantes ferramentas para a detecção precoce do câncer de mama.
Ultrassonografia também é um método de rastreamento
MITO. Não, é um exame complementar à mamografia.
Todo caroço no seio indica câncer de mama
MITO. A maioria dos nódulos que uma mulher apalpa é benigna.
Mulheres que são mães e amamentam por longo período têm menos risco de câncer de mama
VERDADE. Quanto maior o número de filhos e tempo de amamentação, menor o risco da doença.
Fatores de risco são certeiros para determinar o desenvolvimento de câncer de mama
MITO. A maioria das pessoas que tem câncer de mama não tem nenhum fator de risco da doença e 1% dos casos são em homens.
O câncer de mama afeta somente mulheres
MITO. Em 2017, houve 16.927 mortes por câncer de mama no Brasil, sendo 16.724 mulheres e 203 homens; o número representa 16,1% das mortes por câncer em mulheres.
Sobrepeso, sedentarismo e consumo de álcool estão entre fatores de rico
VERDADE. A obesidade e o sobrepeso (pessoas com IMC superior a 28 têm três vezes mais o risco de câncer de mama). O sedentarismo e o consumo elevado de bebidas alcoólicas também são fatores de risco comportamentais.
 
Atividade física, peso adequado e dieta balanceada reduzEM o risco de câncer de mama
VERDADE. A prática regular de atividade física (com 150 minutos semanais de atividade aeróbica), manter o peso adequado, alimentação saudável e evitar o consumo exagerado de bebidas alcoólicas pode reduzir em até 30% o risco de câncer de mama. 
Avanços no tratamento oferecem várias possibilidades 
Entre motivos para comemorar, o médico aponta os vários avanços no tratamento do câncer de mama. “O principal é o descalonamento das terapias, isto é, uma diminuição do tratamento mantendo a eficácia oncológica.” Ele lista, entre os avanços, a possibilidade de conservação da mama e de gânglios, além da oncoplastia, “uma cirurgia plástica associada ao tratamento do câncer de mama”.
O especialista também cita a redução no número de sessões de radioterapia (de 33 para 15 ou até mesmo uma única dose aplicada durante a cirurgia), o que “garante efeito terapêutico idêntico, com menor efeito colateral”. E, ainda, a possibilidade do uso de testes oncogenéticos, que podem definir se a paciente deverá ou não receber quimioterapia.
Por fim, o médico cita o maior problema enfrentado pelas mulheres em relação ao câncer de mama no Brasil. “A maioria não tem convênio de saúde ou não tem condições de receber atendimento particular, o que dificulta o acesso ao diagnóstico precoce e ao tratamento adequado. Apesar da Lei dos 60 dias (Lei 12.732, de 22 de novembro 2012), que indica que, após o diagnóstico de um câncer de mama, o tratamento deve ser realizado dentro desse prazo, muitas mulheres têm atraso em seu tratamento, o que pode comprometer a cura. Para tentar minimizar isso, a campanha da Sociedade Brasileira de Mastologia para o Outubro Rosa de 2019 é: Mais acesso, mais respeito!”, finaliza. 
Palavra de especialista
Selmo Gerber, professor titular do departamento de ginecologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e diretor da clínica Origen
O câncer de mama provoca infertilidade?
Entre mulheres em idade reprodutiva, é possível preservar a fertilidade diante do diagnóstico positivo para câncer de mama. Apesar de a maioria ser advertida pelo oncologista sobre o risco de infertilidade, a medicina reprodutiva ajuda na preservação de óvulos saudáveis. Inclusive, estudos revelam que as mulheres que receberam aconselhamento especializado sobre questões referentes à preservação da fertilidade relataram menos pesar, maior qualidade de vida e maior esperança na realização dos sonhos diante da doença.
Se é verdade que tratamentos, como a quimioterapia, trazem o risco de 60% de perda de todos os óvulos da mulher (o que pode terminar com a reserva de óvulos nos ovários, levar à infertilidade e até à menopausa antecipada), o congelamento de óvulos pode ser alternativa para preservação da fertilidade. Lembrando que a coleta deve ser realizada antes do início do tratamento contra o câncer, pois é necessário induzir a ovulação para coletar óvulos maduros e, então, armazená-los em condições ideais. 
No Brasil, segundo o Inca, a previsão é de 59,7 mil novos casos de câncer de mama neste ano e representa a principal causa de morte por câncer nas mulheres
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Waldeir José de Almeida Júnior,
presidente da Sociedade Brasileira de Mastologia/MG