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Em um mundo pós-apocalíptico, Malorie (Sandra Bullock) e seus filhos precisam chegar em um refúgio para escapar do Problema, criaturas que ao serem vistas fazem pessoas se tornarem extremamente violentas. De olhos vendados para não serem afetados, a família segue o curso de um rio para chegar à segurança.

No início da trama, nossa protagonista está em estado de apatia. Recém-separada do marido, grávida de um bebê indesejado, pintando quadros sombrios que não são terminados, Malorie (Sandra Bullock) verbaliza a intenção de nunca mais sair do seu apartamento, porque se sente segura ali. Ela não é muito diferente do passarinho preso em uma gaiola – uma metáfora bem clara, e óbvia, do aprisionamento. A única coisa que a faria sair do estado quase catatônico seria uma tragédia de grandes proporções, e é exatamente isso que o roteiro lhe fornece. De repente, as pessoas começam a cometer suicídio em massa pelo mundo inteiro.

A diretora Susanne Bier, acostumada aos melodramas, e o roteirista Eric Heisserer, um veterano dos filmes de terror, não se interessam muito à origem da epidemia. Espécie de filme de zumbis sem zumbis, Bird Box reproduz a lógica da contaminação repentina e espetacular, das mortes pelas ruas, do caos na sociedade, da busca por comida, água e tranquilidade num contexto pós-apocalíptico. As cenas de catástrofe são visualmente impactantes, ainda que curtas demais. De mesmo modo, os sobreviventes de uma casa vizinha deduzem com uma facilidade inverossímil que o perigo se encontra em olhar tal presença invisível (razão pela qual precisam vendar os olhos em espaços abertos), e não se preocupam em investigar a origem do problema.

 

Filmes de contágio costumam dedicar um tempo considerável às causas da crise mundial e à restauração do problema – geralmente passando pela conciliação entre familiares, a união entre opostos, a superação de divergências e oposições. Este suspense, no entanto, não possui as mesmas pretensões. Malorie precisa salvar a si mesma e ao bebê, ponto final. Ela não se preocupa com familiares, com pessoas amadas, com o retorno da ordem. O roteiro se apropria de um subgênero tipicamente social para destitui-lo do aspecto comunitário e privilegiar a sobrevivência através do individualismo. É curioso perceber que os heróis corajosos são mortos, enquanto os egoístas conquistam a fuga.

Focando-se na protagonista e nas crianças, o projeto acaba por justapor escolhas interessantes a recursos gastos. Por um lado, a ideia da claustrofobia a céu aberto, em paisagens belas e pacíficas – a dificuldade de remar com os olhos fechados, ou explorar uma floresta sem vê-la – provoca bons momentos de tensão, combinados com imagens subjetivas do olhar parcialmente bloqueado pelas vendas. Por outro lado, a trama abusa de clichês de fragilidade pessoal – vide a dupla gravidez com possibilidade de partos simultâneos, a necessidade de cuidar de criancinhas indefesas, a fácil traição de um dos membros do grupo devido à imprudência dos demais.

Bird Box funciona como um bom exercício de gênero, marcado por imagens plasticamente interessantes da protagonista na natureza. É curioso, no entanto, que o roteiro se recuse a confrontá-la a perigos básicos como a fome, sede e frio. A montagem se atrapalha um tanto no despertar da epidemia (vide as imagens mal agenciadas da personagem de Sarah Paulson), mas em seguida, a alternância entre o passado e o presente constrói um quebra-cabeça diante do qual o espectador é convidado a completar as peças, uma por uma, para então descobrir o quadro inteiro. Por que Malorie está remando com as crianças? Onde estão os outros que a acompanhavam? De que servem, afinal, os pássaros? A narrativa responde calmamente a cada uma dessas respostas, esclarecendo-se por completo apenas no final.

Os momentos mais fortes são aqueles em que se explora a dualidade entre segurança e liberdade: até que ponto você está disposto a abrir mão de sua liberdade para se sentir seguro? Você viveria preso num lugar, sem ter contato com outras pessoas, com os olhos constantemente vendados, ou se arriscaria pelas ruas, podendo ser morto? Muitas conversas entre a protagonista e Tom (Trevante Rhodes) investem nesta importante dicotomia – uma das mais questões essenciais dos nossos tempos, cuja contemporaneidade é acentuada por referências a Donald Trump (“Make the end of the world great again!”, brinca o personagem de John Malkovich). Os coadjuvantes são um tanto rasos, e isso inclui as crianças, excepcionalmente bem comportadas e desprovidas de traços de personalidade ou vontades próprias.

Neste sentido, outra produção de gênero recente, que também privava os personagens de um de seus sentido, se saía muito melhor: em Um Lugar Silencioso, cada membro da família possuía uma personalidade e um ponto de vista distintos, além de investir em imagens devidamente catárticas para a canalização do conflito. No caso de Bird Box, as cenas mais explosivas ocorrem no início, cedendo espaço a uma tensão constante, porém linear e sem muitas válvulas de escape.

Atenção: possíveis spoilers a seguir!

A carinhosa conclusão privilegia o drama ao terror, e prefere enxergar o resto da humanidade com um pouco de otimismo. Talvez não se trate do recurso mais original, e a solução tampouco sugere alguma melhoria no futuro mundial, mas estamos falando de um projeto individualista, certo? Quando Malorie se acalma, o filme se acalma também, e não vê necessidade de seguir adiante. A direção transforma uma catástrofe global num evento íntimo, um impulso para a mulher triste superar seu trauma, se reconciliar com o instinto materno e encontrar a felicidade. Talvez alguns bilhões de seres humanos sejam sacrificados pelo caminho, mas não se faz uma limonada sem espremer alguns limões, certo? Pelo sorriso final de Sandra Bullock e pela sensação de paz explorados pelo enquadramento e pelo som, o martírio valeu a pena.