Se você não gosta de política sempre será governado por quem gosta

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Seria a democracia a forma mais perfeita de uma ditadura, quando faz supor que o povo tenha alguma importância na escolha de seus governantes?

Esta frase merece reflexão diante do alto número de abstenções somadas aos votos brancos e nulos, votos estes que não fazem nenhuma diferença em peso de decisão ou provocação de mudanças. Ao deixar de votar ou votar em branco/nulo, o eleitor apenas está transferindo o seu poder de escolha para outro eleitor.

Nas movediças articulações, estrategistas trabalhavam nos bastidores já sabedores que os índices de abstenções e votos brancos e nulos seriam mais altos no segundo turno que aconteceu no último domingo, 24, no Tocantins. O grupo vencedor trabalhou neste sentido.

Em sobreposição à revolta geradora das abstenções/brancos/nulos líderes comunitários tiveram seus passes valorizados, grife-se, tinham peso de ouro. E, os poucos votos que seriam capazes de arregimentar fizeram toda a diferença no último domingo. Esta não foi uma campanha barata para quem ganhou, mas principalmente para os que perderam.

O número de abstenções, votos brancos e nulos somou 51,83% do total de eleitores. É exatamente por isso que pergunto se a democracia pode ser filosoficamente discutida como a mais perfeita forma de ditadura, posto que, não foi a maioria absoluta que escolheu quem governará. Mais da metade da população do Tocantins não se importou em jogar fora a sua responsabilidade de escolher um governante para depois cobrar dele.

Não quero aqui fazer uma cruzada contra o otimismo, mas, 51,83% dos tocantinenses não podem reclamar do que possa ou não acontecer até o dia 31 de dezembro. Claro que eu torço para que o novo governo de Carlesse traga ao estado a tão divulgada estabilidade, foi acreditando nisso que mais de 368 mil eleitores escolheram por mantê-lo no Palácio Araguaia.

Por que Vicentinho perdeu as eleições?

Nos grupos de WhatsApp surgiram várias “mães-Dinás” com bola de cristal para dar justificativas sobre a derrota de Vicentinho Alves, não farei este papel. O candidato e sua coordenação devem reconhecer onde falharam, dizer que o peso da máquina do estado fez a diferença, tem lá sua razão, mas não é de nenhuma maneira, o fator preponderante da derrota de Vicentinho. Ao mudar a agência de publicidade na sua campanha no segundo turno, o tom daquele Vicentinho propositivo, paz e amor, descambou para um Vicentinho vingativo, triste e que tentava se posicionar como vítima, mesmo dominando uma metralhadora de ataques.

No sudeste, não foi difícil encontrar líderes regionais que mais desagregavam do que uniam votos. Nas fotos de campanha, o disfarce de um mal-estar interno gerado pelo excesso de ego, ciúmes e brigas por espaço. O resultado disso, apenas para resumir o que aconteceu no resto do estado, Dianópolis amargou um resultado vergonhoso para Vicentinho, que era tão presente na região. A lição que os “líderes” da cidade podem tirar desse fato histórico é o aprendizado que a forma arcaica de se fazer política e empurrar o povo com a barriga e tapinha nas costas não tem mais espaço nestes tempos em que a informação voa na velocidade da luz. Mas duvido que consigam engolir o choro, as falhas dos líderes regionais não descerão por suas gargantas. Capaz, tomem a mesma dose de arrogância nas eleições gerais de outubro próximo.

O velho Antônio Carlos Magalhães (ACM) da Bahia, dizia que em campanha política, o líder deve saber primeiro, quem não quer ao seu lado.

ABSTENÇÃO, NULOS E BRANCOS

Não há nada mais perigoso do que uma pessoa que quer fazer o bem e se considera boa, querendo mudar o mundo para melhor apenas com suas próprias convicções.

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É um perigo compreender o espírito da lei, e não a lei.

Nesta eleição suplementar uma “modinha” rapidamente se alastrou, inclusive com apoio de alguns políticos que perderam no primeiro turno e incentivavam votos em branco/nulo ou que as pessoas não fossem votar. Me perdoem aqueles que defenderam isso, mas em política não há uma asneira maior que fazer este tipo de defesa.

Voto nulo não anula eleição, nem voto branco, muito menos tomar a decisão pouco responsável em não ir votar. Democracia dá trabalho, e nós precisamos ter afeto por ela. Precisamos cuidar da nossa democracia que já é frágil e incipiente.

Eu tenho dito que é uma tendência mundial em eleições dos últimos 15 anos, votos brancos e nulos aparecerem com um crescimento veloz, isso começou na Europa e ganhou a atenção do Brasil com a eleição de João Dória em 2016 em São Paulo no primeiro turno, fato nunca presenciado por lá, mas aconteceu em 2016 graças aos votos brancos e nulos que foram maiores do que a própria votação do eleito Dória.

O desinteresse pela política enfraquece o processo democrático. Este é um fato.

O desinteresse da política materializado na recusa de votar é uma coisa que tem se tornado comum em muitos países, o Brasil está chegando atrasado nisso. Aqui no Brasil o cidadão é obrigado a votar, soa estranho que o voto seja um direito cujo o eleitor é obrigado a exercer. Chega a ser cômico isso. Essa discussão precisa ser iniciada, obrigar o cidadão a votar reforça ainda mais o seu desinteresse pela política e faz com que as estruturas de poder sejam sempre comandadas por aqueles em quem a população não se sente representada.

O choque entre desejo individual e bem comum não tem solução. A dimensão trágica que os gregos deram em “Medéia” e outras peças, é que, essa “hybris” humana, isto é, este desequilíbrio, é permanente. Este choque não tem solução.

Conseguiremos no Tocantins transformar uma realidade vinda desde a Grécia Antiga?

O governo agora, não pode garantir o paraíso, isto é impossível, mas deve, ao menos, impedir que ocorra um inferno. O que é viável e inspirador.

Ainda que seja contra o voto branco e nulo, considero a atitude uma opção política. Uma mensagem clara e direta, dada em protesto à obrigatoriedade do voto e a média de baixa qualidade dos candidatos. Esta é uma questão que deve ser levada em conta.

Haja o que houver,

Stephson Kim – Editor