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Jair Bolsonaro recebeu no palácio residencial do Alvorada os líderes partidários com os quais relutava em conversar. Contaram-se representantes de 19 partidos. Ao final da conversa, na noite desta terça-feira, o capitão dançava conforme a música dos convidados —um choro bem brasileiro. O espetáculo é triste. Mas sem ele a reforma da Previdência não sai do lugar, o PIB fica sedado e o governo do capitão definha.

Pela manhã, num encontro com empresários em São Paulo, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, disse o que faltava para a coreografia deslanchar: “O problema é que o presidente está refém do discurso dele de campanha. A sociedade pós-eleição gerou muita expectativa do governo do presidente Bolsonaro de que nós teríamos aí um novo país. Só que as mudanças não são tão rápidas em um país democrático.” Segundo Maia, o presidente precisa decidir se vai governar sozinho ou “junto com o Parlamento.”

De volta a Brasília, Rodrigo Maia foi ao encontro noturno do Alvorada. Testemunhou, finalmente, a descida de Bolsonaro do palanque. O presidente livrou-se do cativeiro da retórica eleitoral para tornar-se refém dos profissionais da política. Ouviu críticas à reforma previdenciária. Repetiu que a boa reforma não é a que o governo considera ideal, mas a que o Congresso se sente à vontade para aprovar. Ficou entendido que não transformará num cavalho de batalha o arrocho na aposentadoria rural e a torcida no braço dos velhinhos pobres que recebem um salário mínimo aos 65 anos.

Ecoou no salão o chororô contra a falta de articulação do governo, eufemismo para o “quanto é que eu levo nisso?” Coube ao chefe da Casa Civil, o desarticulado Onyx Lorenzoni, esclarecer que o relacionamento do novo governo com o Legislativo se dará em velhas bases. Aceitam-se indicações partidárias para cargos federais nos Estados, informou Onyx. De resto, o governo levará ao balcão, sem bloqueios, as verbas das emendas que os congressistas penduraram no Orçamento de 2019.

Bolsonaro entrou na dança porque prometeu na campanha providências que dependem de reformas constitucionais. A mexida na Previdência é a mais importante. Para aprová-la, precisa do voto de três quintos da Câmara e do Senado. Isso corresponde a 308 dos 513 deputados e 49 dos 81 senadores. Serão dois turnos de votação em cada Casa.

O PSL, partido de Bolsonaro, é dono da maior bancada da Câmara: 54 deputados. Unido, passaria longe dos 308 votos. Desconjuntado como está, fica ainda mais distante. Por isso Bolsonaro precisa rebolar para obter apoio. Se fracassar, deixará de ser presidente para virar um gerente de crise. Se conseguir, segue o jogo. O capitão não será o primeiro presidente a capitular diante da força do fisiologismo.

Se tiver disposição, pode tentar impor limites ao jogo. O segredo é não permitir que a coisa vire um abracadabra para a caverna de Ali-Babá. A Lava Jato mostrou que a farra fica perigosa quando chega a esse estágio. A desfaçatez passou a dar cadeia no Brasil. Que o digam Lula, Eduardo Cunha, Eduardo Azeredo, Sergio Cabral e tantos outros.

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Josias de Souza é jornalista brasileiro. Exerce o jornalismo desde 1984. Atualmente, é comentarista de política na TV Gazeta. Trabalha na Folha de S.Paulo desde 1985.