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Os contemporâneos de Leonardo Da Vinci (1452-1519) contam que o artista, engenheiro e sábio de muitas disciplinas costumava fazer um gesto característico quando conversava com os nobres, exibia-se em um palco ou se dirigia a aprendizes no ateliê: levantava a mão e apontava com o dedo indicador para o alto, em direção de algum objeto ou mesmo de um fenômeno natural. Em vida, o Leonardo di Ser Piero da Vinci — nascido em Anchiano, lugarejo vizinho a Vinci, então república de Florença, filho ilegítimo do notário Piero Fruosino — despertava admiração pela beleza, força física, maneiras refinadas, raciocínio crítico e a vontade de impressionar e até chocar as pessoas a sua volta.

NO ESPELHO – Esboço de um retrato de Leonardo Da Vinci (c. 1518), feito por um aluno. Abaixo, autorretrato de Leonardo: seus rosto e gestos aparecem em várias obras

Trajado com um manto cor-de-rosa curto, quando a moda era a veste longa, bastos cabelos encaracolados e barba que lhe caía pela cintura, leonardo se imbuía de uma consciência teatral. Representava o papel do personagem que, com curiosidade insaciável, perseguia a perfeição: a imagem do que se convencionou chamar de homem renascentista, aquele que se liberta das superstições medievais e usa o poder de observação da natureza para expressar o resultado do conhecimento em esboços, diagramas, cálculos e, por fim, obras de arte e engenharia.

A síntese do “método de Da Vinci”, como descreveu o poeta Paul Valéry, uma modalidade de alto saber não-verbal, pode ser encontrada na imagem da mão humana com o dedo apontando para um alvo determinado ou não. Além de repetir o gesto no dia a dia, ele o fixou em pinturas: São Tomé inica o céu em “A Última Ceia”, o anjo de ‘‘Anunciação” aponta Maria para o espectador e São João Batista ergue o dedo com um despudor que ainda faz corar muitos críticos. seu modelo teria sido o jovem aluno Salai (“Diabinho”), um delinquente com quem viveu por longo tempo.

AUTORRETRATO
(33 cm X 21 cm)
1512-1515
Biblioteca Reale
Turim – Itália

Provocador, Leonardo parecia querer mostrar o caminho da redenção ou a trilha da decifração do universo. “Para Leonardo, Mistério era uma sombra, um sorriso e um dedo apontado para a escuridão”, disse um de seus biógrafos mais eminentes, o inglês Kenneth Clark (1903-1983).

No cotidiano do florentino, o enigmático se misturava à pesquisa. Nas 18 mil folhas dos manuscritos que sobreviveram e nos esboços e diagramas distribuídos caoticamente em códices e cadernos, ele projetou instrumentos musicais, armas, ferramentas e veículos que só viriam a ser realizados nos séculos vindouros. Esmerou-se em se tornar mestre em geometria, engenharia hidráulica, matemática, geologia, balística, acústica, botânica, física, anatomia — ao todo, 13 disciplinas como são compreendidas no século XXI.

Se há algo que pode rivalizar com LEONARDO Da Vinci é o computador, uma metáfora que dá ideia do que ele fez

Mas, na realidade, somente a partir do século XIX é que Leonardo foi reconhecido como inventor visionário e modelo científico. Muitos cientistas tentaram minimazar sua contribuição para áreas como a engenharia. O influente químico francês Marcellin Berthelot afirmou, em 1902, que os projetos de Leonardo eram comuns a outros investigadores renascentistas. Nada mais, no entanto, abalou a reputação do gênio — e ele atravessou o milênio mais cultuado do que nunca. Para o crítico Teixeira Coelho, professor da USP, ele prefigurou o sonho atual da universidade de unificar o conhecimento. “Se há algo que pode rivalizar com Leonardo da Vinci é o computador, uma metáfora que dá ideia do que ele fez”, acrescentou.

Seus experimentos científicos eram desconhecidos de contemporâneos, exceto por episódios esparsos e excêntricos. Em 1517, quando trabalhava na França para o rei Francisco I, respondeu ao cardeal de Aragão como obtinha desenhos tão fiéis de seres humanos: “Dissequei cadáveres de mais de 30 homens e mulheres de todas as idades”. O religioso ficou escandalizado. Esse tipo de atitude sarcástica forneceu ao artista uma aura diabólica. Na verdade, devotou-se também à nigromancia, prática que envolvia magia negra e profecia. Inspirados nas ciências ocultas, no fim da vida, Leonardo desenhou em carvão cenas catastróficas que, para alguns, ainda podem suceder à humanidade.

O fato é que ele ficou famoso ainda durante sua existência por causa da excelência artística. A realização final do conjunto de suas aquisições científicas visava a resultar em pinturas, afrescos, esculturas e até peças de teatro e ópera. Um exemplo desse procedimento peculiar é o desenho “Homem Vitruviano” (c. 1490). Leonardo concentrou ali todos os conhecimentos que possuía. O objetivo era traduzir em desenho a descrição da proporção perfeita do corpo humano realizada pelo arquiteto romano Vitrúvio (século I a.C.) para aplicá-la em edificações. Vitrúvio achava que o corpo perfeito compreendia seis pés de altura, mas não explicou isso em um diagrama. Coube a Leonardo fazê-lo. Para a tarefa, usou desenho tridimensional, matemática e geometria. Mas concluiu que Vitrúvio estava errado. Segundo ele, a proporção correta seria de sete pés. Ele o representou então em duas posições simultâneas, inserido na quadratura do círculo. Dizem os especialistas que o modelo do “Homem Vitruviano” era o próprio Leonardo nu, aos 38 anos. Ciência ou arte? Como afirma seu recente biógrafo, o americano Walter Isaacson: “Leonardo não distinguia arte de ciência”.

ANATOMIA – Leonardo dedicou-se à dissecação de cadáveres e fez rascunhos sobre o esqueleto humano, nervos, músculos e órgãos. Um dos primeiros desenhos científicos de um feto humano foi dele. Os estudos só foram revelados cerca de 300 anos depois, até porque as anotações eram escritas de forma que só pudessem ser lidas se colocadas diante do espelho

O paradoxo em torno de Leonardo não repousa na dicotomia entre criação artística e experimentação, mas no fato de que suas realizações foram parciais. Apesar de adotar a divisa “Hostinato rigore” (rigor obstinado), foi um profissional dispersivo que deixou diversos projetos inacabados. Além de insubordinado, apreciava organizar espetáculos e festas particulares com seus aprendizes.

Em de seus traços que desagradava à nobreza era recusar encomendas de retratos. Mesmo assim, trabalhou para mecenas. O florentino César Bórgia e o milanês Ludovico Sforza tinham inclinações distintas e Leonardo tratou de se adaptar aos desejos deles. Bórgia reuniu um círculo de intelectuais neoplatônicos e cultuava a forma ideal. Sforza planejava anexar territórios ao Ducado de Milão e, por isso, precisava de máquinas de guerra. Leonardo produziu pinturas para Bórgia, e projetou canhões e um gigantesco cavalo de bronze para Sforza. Também pintou o afresco “A Última Ceia”, encomendado por Sforza para o refeitório do convento de Santa Maria delle Grazie, do qual era patrono. Para realizar a obra, entre 1495 e 1498, o pintor estudou a arte do painel, que não conhecia. As soluções que encontrou foram insuficientes para manter a obra de pé, por causa dos pigmentos que não aderiam à parede. Mesmo assim, “A Última Ceia” se tornou sua segunda obra mais célebre. Perde apenas para a pintura mais famosa do mundo, a “Mona Lisa” (c. 1503), que elaborou em seu regresso a Florença, e hoje atrai 3,5 milhões de admiradores anualmente ao Museu do Louvre.

A indecifrável

A mística em torno do retrato da moça florentina sorridente (daí o apelido “La Gioconda”, a sorridente) rendeu especulações e livros. A modelo teria sido Lisa Gherardini, mulher do comerciante Francesco del Giocondo. Há quem aposte na nobre Isabella d’Este. Historiadores confiáveis afirmam tratar-se da favorita de Giuliano de Médici, Pacifica Brandano. Leonardo também usou-a para posar para o desenho “Mona Lisa nua”, supostamente a mando de Médici. O nobre libertino pediu que o pintor escondesse os dois retratos porque não queria que a mulher os descobrisse.

Ocultar representações de Pacifica teria sido a razão de Leonardo levá-las consigo quando se mudou em 1516 para Amboise, a convite de Francisco I. O monarca francês lhe ofereceu o solar de Clos Lucé, próximo ao castelo real, onde o artista passou a viver com o pupilo e herdeiro, o jovem Francesco Melzi. Na França, poderia se dedicar à meditação. O rei achava que Leonardo era um grande filósofo que perdeu tempo em pintar quadros. Quando o pintor morreu, em 2 de maio de 1519, aos 67 anos, “La Gioconda” estava pendurada a uma parede de seus aposentos.

A razão mais plausível para Leonardo tê-la conservado foi o apreço pela obra, que realizava como nenhuma outra aquilo que considerava sua contribuição maior: o efeito do “sfumato”. Segundo o historiador Giulio Carlo Argan, Leonardo foi o primeiro a ter observado que a atmosfera não é transparente e idealizada nas telas dos primeiros mestres renascentistas, como o platônico Botticelli. O ambiente possui densidade e cor, porque isso pertence aos fenômenos naturais. Estes elementos eram experimentados e testados no processo de elaboração artística. “Leonardo representa a figura com a atmosfera que a envolve”. O retrato da Gioconda se apresenta inseparável da paisagem quase abstrata do fundo e do véu de sombria transparência que envolve a figura humana com a luz do final do crepúsculo, tão apreciada pelo pintor.” Eis aí a lição maior de técnica pictórica ministrada pelo Alquimista do Chiaroscuro, como o apelidou o historiador Serge Bramly.